Lembro-me que no primeiro dia de Primavera chovia sempre. Sempre quero dizer, todos os anos, no primeiro dia de Primavera.
Daqui a menos de um minuto ele vai tirar do bolso uma pistola, um revolver, .38. Já está. Entre os olhos. Alguém vai dizer que não havia razão para tal.
Lembro-me de estar à porta, de postigo aberto, olhar para a rua. E do café quente em cima da mesa.
Por cá já não se liga a essas coisas. Velhos são velhos. Como os trapos. Noutras terras, outras gentes, mãe é mãe. Não devia ter dito nada.
A porta mostra que a casa há já muito que deixou de o ser. Passo, olho, mal vejo. Abraça-me. Não quero que os fantasmas te levem, pensa.
Uns dias depois, deitava-me nas ervas frescas, mordiscava azedas, gostos amargos que vidas doces precisavam para as chamar à terra…
No regresso nem se dá por ela mas lá em cima, uma janela por onde assoma esvoaçante uma comprida tira bordada, alva, estranhamente alva, para uma ruína diga-se… Faz-me olhar para a alma e por ela ver o céu.
A lua cheia. Pois. Só pode ser da lua cheia…